19/5/2010
Ap Freitas
“A gratidão é a virtude das almas nobres” – Esopo. Conta-se a história de um homem da antiguidade, na Grécia antiga, Diógenes Laércio, que anda pelas ruas da cidade procurando, de vela acesa na mão e durante o dia, "um homem", numa atitude ferozmente crítica que demonstra a decadência do ideal grego de Homem, seja guerreiro, atleta ou legislador. Se algum homem repetisse tal gesto hoje, a procura de um homem virtuoso, com certeza teria a mesma dificuldade, pois sobram simulacros de homens e faltam as verdadeiras virtudes que formam um homem de bem, pois em tempos de trevas espirituais, faltam virtudes como justiça, bom caráter, integridade, honra, ética, fidelidade e um nível mínimo de espiritualidade cristã. Penso que, entre tantas virtudes ausentes, a gratidão deve estar no patamar mais alto. Vivemos tempos de grande ingratidão, em todos os níveis imagináveis. Vemos filhos ingratos aos pais que tudo fizeram e se sacrificaram por eles; maridos que, depois de construírem um nome e adquirirem fama e poder, abandonam a esposa e, por conseqüência, destroem a família que lhes deu o suporte necessário para galgarem os degraus alcançados. Vemos ingratidão daqueles que, como “serpentes que foram criadas dentro de casa”, viram as costas para aqueles que investiram em suas vidas e os ajudaram a se tornaram o que são. É a ocorrência da “síndrome de Lúcifer”- quando a vaidade, o orgulho e a arrogância tomam o coração e expulsam o companheirismo, a humildade e, sobretudo, a gratidão, transformando a criatura e o ser criado em um anjo caído e rebelde. “Como caíste do céu, ó estrela da manhã, filha da alva! Como foste lançado por terra, tu que debilitava as nações! E tu dizias em teu coração: eu subirei ao céu, acima das estrelas de Deus, exaltarei o meu nome, e, no monte da congregação, me assentarei...”(Is 14.12,13). Elevou-se o teu coração por causa da tua formosura, corrompeu-se a tua sabedoria, por causa do teu resplendor; por terra te lancei, diante dos reis te pus, para que olhem para ti...(Ez 28.17). Como escreveu Antístenes – “a gratidão é a memória do coração”. Assim, percebemos que os homens estão ficando sem memória – esquecem o bem que lhes foi feito, tornando-se indignos que favor recebido. São como aqueles leprosos curados pelo Senhor Jesus que, sendo em número de dez, apenas um voltou para expressar sua gratidão: - “E aconteceu que, indo ele a Jerusalém, passou pelo meio de Samaria e da Galiléia. E entrando numa certa aldeia, saíram-lhe ao encontro dez leprosos, os quais pararam de longe, e levantaram a voz, dizendo: Jesus, Mestre, tem misericórdia de nós! E ele, vendo-os, disse-lhes: Ide e mostrai-vos aos sacerdotes. E aconteceu que, indo eles, ficaram limpos. E um deles, vendo que estava são, voltou glorificando a Deus em alta voz. E caiu aos seus pés, como o rosto em terra, dando-lhe graças; e este era samaritano. E, respondendo Jesus, disse: - Não foram dez os limpos? E onde estão os nove? Não houve quem voltasse para dar glória a Deus, senão este estrangeiro? E disse-lhe: Levanta-te; a tia fé te salvou” (Lc 17.11-19). Jesus surpreendeu-se porque apenas um dos dez leprosos curados voltou para expressar sua gratidão e, ainda, era samaritano – representante de um povo desprezado pelos judeus. Apenas 10% foi o percentual de gratidão. Baixíssimo para aquela época e, creio, que hoje, também, a gratidão é virtude altamente em falta. Finalmente, vale lembrarmos o que escreveu John Miller – “o quão feliz é uma pessoa depende de sua gratidão”. E, ainda, o que escreveu Cícero – “nenhum dever é mais importante que a gratidão”. Que o Senhor Deus nos dê um coração agradecido. Que todos nós busquemos, de todo coração, cultivar essa virtude tão importante, pois, a palavra de Deus nos adverte - “Sede agradecidos...”(Cl 3.15); “Em tudo daí graças, porque esta é a vontade de Deus em Cristo Jesus para convosco”(ITes 5.18). Se a gratidão está em falta no mundo, pelo menos que ela esteja presente no meio da igreja – daqueles que se dizem filhos de Deus. Porque não se pode admitir que alguém sendo cristão seja ingrato – tais coisas são incompatíveis. “Não há no mundo exagero mais belo que a gratidão” – Jean de La Bruyere.


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